Quarta-feira, Agosto 17, 2005


Era uma vez ...

Uma mulher, por volta dos seus 21 anos....Morena de cabelos negros e uma vida tranquila numa cidade de praias lindas no nordeste deste Brasil. Sempre muito prestativa, servia de companhia as mulheres que iam pra algum lugar na rua, Muito faceira e faladeira, fazia amizades com facilidade, Era mesmo bonita de chamar atençao. Subiu no onibus, pagou a passagem e sorriu, desceu e olhou, nascia ali o namoro da minha mae e do meu pai....Era muito amor com uma mistura de ciume e romance de primeira viagem, Passeios por praias, encontros, e mais querer.....Eu surgi e mudei a vida de todos, a vida da bela moça foi transformada em prendas do lar, passeio a casa dos pais, espera do marido chegando a noite pra brincar com a filha, e o amor ainda era grande e dele, outra menina , eramos 2 , a moça amava as crias,o marido, a vida humilde e tudo que viesse dela e do amor que sentia, A moça era mesmo pra casar e desempenhada suas atribuiçoes como ninguem, Ele honesto, calado e trabalhador, Sentiu que ali nao poderia prosperar, rumou a São Paulo no grande sonho de fazer carreira, ganhar dinheiro e buscar a familia, Ficamos ali nos 4, eu, minha irma pequena, minha mae e a barriga... que nasceu sem ver o homem da casa. Mas foi recebida pelo vô Manel , que cuidou da gente enquanto nosso pai trabalhava, e até o dia que Deus quis que ele fosse ser forte lá no céu. Era muito dificil, sem contato com a grande Spaulo, porque telefone era luxo, e cartas? ahh homem nao gosta de escrever, e ficamos meninas esperando, o dia que o pai chegaria, cheio de presentes, com um largo sorriso e dizesse "vamos" Esse dia demorou muito a chegar, tanto que a nossa fortaleza disse basta, e deixamos tudo pra tras, a espera, as lembranças, a familia chorando, e os sonhos perdidos. Foi como se nossos pulmões se enchessem de ar, pra enfrentar a guerra. Chegamos a Spaulo com um endereço e sabendo que alguem nos esperava, era muito pequena e nao tinha como entender o que passava dentro da nossa mae, com certeza eram muitos sentimentos, muitos porques,Me lembro da chegada, da tarde de sol frio, do almoço pronto por parentes cheios de perguntas, e a gente só queria saber se eramos bem vindos, era um quintal grande, com outras crianças, diferentes em tudo, sotaque, roupas e atitudes, era nossa outra familia, que aos poucos foram se mudando pra deixar a dona da casa ocupar o devido lugar, Tinha saudade do sol, do pé de castanhola, da brincadeira de correr pra lá e pra ca, e dormir pra acordar e fazer tudo de novo. Fui a primeira vez a escola aqui em Spaulo depois de 1 ano que chegamos, muito frio pela manha , era muita novidade, e ainda assim era feliz, ficou o vazio pela espera de ir nos buscar, e chegar assim, intrusa, ficou a vontade de ter a familia reunida e que chegassem os outros, mais uma, mais um, mais uma , a vida dessa moça bonita, se transformou numa vida cruel, cheia de medos, e angustias, aquele que era o homem dos sonhos dela, era na verdade uma pessoa fria, que nao pensava pra ofender, em maltratar e espancar. Gritos calados pra nao chamar a atençao da rua, manhas cheias de medo com o chegar da noite, onde tudo podia se repetir , era uma sessao de cuidados. se acontecer alguma coisa, tome conta de tudo, vc é a mais velha, cresci com a responsalibidade de ficar no lugar, e era muito triste ver a moça tao bela, com rosto judiado, por aquele que dizia: eu nao fui buscar ninguem, doia ouvir. e a moça que foi criada pra casar baixava a cabeça e só sentia medo, Muitos anos se passaram, eu estudei, fui rebelde e fui trabalhar, sim, mulher nao trabalhava, mulher que era enfermeira, secretaria ou afins era amante do chefe, caso do patrão, cabeça de nordestino que pintava e bordava na rua e era exemplo de moral dentro de casa, fui sim ! fui baba meio periodo, vendedora de loja de sapato por uma semana, recepcionista, aux de escritorio, e mais um monte de coisas,e fui a primeira da geraçao sao paulo a fazer tudo, eu queria oculos, aparelho, cabelo diferente, cantar em ingles, estudar a noite e trabalhar, ter meu dinheiro. Desse pai eu nunca apanhei, nunca recebi nenhuma critica, por tudo era meu ídolo, o homem da casa o que eu esperava pra tirar os seus sapatos depois do trabalho e o que foi na escola de datilografia tirar satisfaçaoes com a professora por algum problema. A moça minha mae era a mais doce e me criou sabendo tudo dessa vida, de como ser feliz, de como buscar a felicidade de como ser respeitada respeitando, de como manter amigos, a escolher pessoas boas, a seguir por ali e por aqui, Abriu minha vida pros sonhos, me deu direito de escolha, e orientou quando eu quis errar. Foi assim com nós 6, mostrando a vida, que ela é dura mas pode ser mágica, e só fechar os olhos. Hoje depois de muitos anos o rosto da moça faceira tem linhas de expressao e preocupaçao, marcas do sofrimento que ficou no passado, ainda chora pelo porque de ter vindo, diz que seria diferente lá, sim seria, mas eu nao teria minhas outras irmas, nao seriamos 6 ou 7 como Deus quis, talvez fosse só a saudade de um homem que eu amei conhecer e chamar de pai, nao teria meus sobrinhos, meus cunhados . seriamos só 4, quem sabe esperando que fossem nos buscar. Quem sabe se uma bala nao tivesse tirado a vida do meu avô eu ainda fosse uma menina da beira da praia, Cresci muito como pessoa nessa terra de pedra, que me fez mulher a duras penas, e mostra todos os dias o quanto é preciso sobreviver. A moça faceira tem uma familia linda, unida e cheia de muitas necessidades, compensadas pelo amor em Deus e a Fé no outro dia. Somos felizes, nosso pai hoje ja se aposentou, vive em casa e pra cuidar do neto, chora quando eu ligo e diz "Deus te abençoe" quem diriam seu Antonio, a vida ensina muito, e mostra mesmo depois de algum tempo como é simples ser feliz. Ahhh a moça? é a minha mae, a mesma morena de cabelos lindos hoje com 60 e poucos, ainda é faladeira, cheia de amizades por onde passa, e faz questao de nos apresentar assim : essa é minha filha, depois da fulana e antes da cicrana , que tem uma filhinha...que eu te falei, que trabalha em tal lugar, que tem aquele carro, essa é minha filha mais velha. ô mae o orgulho é todo meu de ser sua filha, de ter sido fruto do seu amor, e causa pra sua luta. Obrigado por me fazer gente.

Posted by sweet memories at 9:46 PM




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